segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Utopias?



Porque um dia recordaram-me que o ser humano reagia, não agia. Desprezei essa memória. Das poucas que desprezei ao longo da estrada. Quis tapar o nariz, fechar os olhos, isolar-me do pensamento só de saber da existência e (talvez) da veracidade de tal especulação. Aquela silenciosa afirmação caíra-me como chuva de terra, vinda do céu, a fim de nos afogar e ao mesmo tempo nos fomentar a sede... Não me quis ficar por ali. Não desisti... Encontrei um barco feito de papel e rabiscos. Letras e palavras unidas uma vez mais para a que viria a ser a grande aventura…

Diário de bordo:

Decidi acreditar na humanidade. Decidi ter fé. Decidi acreditar na esperança, não para garantir a minha sobrevivência. Simplesmente decidi acreditar como uma criança que acredita na primeira música que ouve, lembrando-se dessa memória e que mais tarde não a deixa afogar. 

Navego por entre mares desconhecidos à espera…à espera que o mundo acorde e que finalmente veja o universal amanhecer. 

Está na altura de agirmos, penso. Com o melhor de cada um de nós. 


"O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esprança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte -
Os beijos merecidos da Verdade.”.
Fernando Pessoa in Mensagem

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Um lado luminoso

Noite.

Olho para o meu quarto com medo de lá entrar, com medo de não encontrar vida. A minha mãe está mesmo atrás de mim, pronta para me aconchegar ou para dar uma mão amiga, penso.

Não o faz.

De forma instintiva e ternurenta deseja-me boa noite ao mesmo tempo que me protege com um daqueles sorrisos que nos tocam no rosto e que nos levam a sentir todo o calor materno, relembrando-nos, não com a memória, mas com os sentidos, o que em tempos foi a nossa casa.

Fecho os olhos…

Ouço os calorentos passos a irem-se embora e o ruído gentil da porta do meu quarto a abrir e fechar silenciosamente. A minha mãe “abandonou-me” - era o palavrear que ocupava a minha cabeça, à medida que a escuridão invadia aquela divisão da casa. Todo aquele carinho tornou-se injusto.

Num ápice, acendo a luz da cabeceira, a fim de iluminar à minha volta tudo o que era obscuridade. Sentia-me de novo protegido; protegido pela luz e somente pela luz. Não precisava de mais nada. Era a minha luminosa companheira. Sempre que tinha a tendência para a meio da noite ir ao sítio das necessidades biológicas e afins, ela acompanhava-me, pois sabia que o “não poder ver” e a “ausência de” eram incompreensíveis para a minha idade.

Viajávamos juntos para qualquer destino. Seja ele o sonho ou os vários ecossistemas da minha própria casa. Uma coisa era certa: à rua, a minha luz nunca ia. 

Histórias desinteressantes sobre as ruas, ela contava-me (acho que eram sobre as ruas, que mais haveria de ser?), desinteressantes não pelo seu conteúdo, admito, mas porque não percebia nada. Não começavam pelo suposto era uma vez, nem acabavam no viveram felizes para sempre. Histórias inacabadas... 

A fragmentação das tradições, da sociedade, do indivíduo contemporâneo da época do consumo de massa, a privatização a grande escala, a erosão das identidades sociais, a adversão política e ideológica, a desestabilização acelerada das personalidades; vive-se lá fora uma revolução individualista. Na sociedade pós-moderna habita a indiferença de massa, a saciedade e a estagnação. O novo é acolhido do mesmo modo que o antigo, a inovação não passa de um processo banal, em que o futuro deixou de ser metáfora de progresso inevitável. Direcções opostas existem entre esta e a que foi a sociedade moderna, estando a actual a caminhar para aquilo que se assemelha a um abismo. Estamos ávidos de identidade, de conservação, de descontracção; a esperança dissolve-se, direi melhor, desaparece; já ninguém acredita no revolucionário amanhecer, em vez disso, o que interessa é ser-se jovem, a ideia de se forjar o homem novo deixou de ser fundamentada. Sociedade pós-moderna corresponde à retracção do tempo social, corresponde à sociedade que não se governa e àquela que conseguiu neutralizar, na apatia, a sua base construtiva, aquilo que se anseia, o seu último pilar: a mudança! - "historiava" a luz num som mudo e vertiginoso.

Sussurrava-me, por vezes, ao ouvido, coisas sobre profecias e o narcisismo pós-moderno e depois concluía em tom de provérbio: o vazio revela-se sobre a forma de anonimato celestial – nessa altura a minha mente adormecia e eu adormecia com ela. 

Com a minha luz parecia que o universo girava à minha volta e eu era a Terra da teoria geocêntrica. As respostas às minhas perguntas eram me dadas pela mesma. O porquê de eu conseguir ver, ouvir, cheirar, sentir… tudo fazia sentido naquela idade, incluindo a existência daquela luz, o seu imutável acender/apagar; sem exagerar, até percebia os grandes que não conseguiam perceber o porquê de tudo isto!

Retomo aquele momento em que adormeci: nessa paragem de tempo em que a noite pairava passeando o tilintar das estrelas, a luz havia sido apagada pela mão daquela cujo carinho me pareceu injusto e que afinal apenas fechou a porta, sem nunca me ter “abandonado”…


Cada vez que passo por aquele candeeiro, já não tenho necessidade de o acender. Aprendi a compreender a sua razão de não querer sair à rua, aprendi a ouvir a sua essência e acima de tudo, ela ensinou-me a dormir no escuro.


André Seixo